Arquivo de Tags: universidade

Boa noite, senhoras e senhores!

Ontem tive um raro privilégio nessa vida de estudante… talvez um evento único nessa vida de acadêmica.

Ah, não sei como introduzir isso de uma maneira menos direta: FUI AO “CAFÉ GEOGRAPHIQUÉ” ORGANIZADO PELA PÓS ONDE NINGUÉM MAIS, NINGUÉM MENOS QUE PAUL CLAVAL ESTAVA PRESENTE! Tive essa oportunidade graças à professora Salete, pessoa maravilhosa com quem estou estabelecendo algumas parcerias acadêmicas. =D

Além disso, tive a oportunidade de assistir a palestra sobre paisagens culturais. Fiquei felicíssima da vida quando ele mencionou um livro que comprei e comecei a ler: “Cultural Geography: a critical introduction” do Don Mitchell. Achei que seria uma obra “secundária” pelo fato de nunca ter ouvido falar do autor… mas se Claval leu, certamente fiz uma boa escolha. (Olha a falácia do argumento de autoridade aí, gente!!!)

Paul Claval é um geógrafo Francês com seus 70 e poucos anos cujas obras (especialmente “Geografia Cultural”) foram traduzidas para diversos idiomas. Recebeu o maior prêmio que um geógrafo pode receber: o o Prêmio Vautrin Lud, (este prêmio é conferido por universidades de 50 países).

Foi uma experiência bacana. Eu achei que ia ficar meio acanhada, mas acabei ficando TOTALMENTE acanhada. Não só eu, como todos os pós graduandos (e alguns professores!) ficamos cheios de dedo, tratando o hóme (que escreveu aproximadamente 700 artigos (!)) com bastante receio. De tanto hesitarmos, aquela teoria que John Nash formulou em “Uma Mente Brilhante” sobre a garota mais bonita acabou se aplicando: a pessoa mais “requisitada” acabou ficando sozinha. Nisso, acabei perguntando da temporada dele nos EUA e Canadá, e ele me falou que esteve com ninguém mais, ninguém menos que Yi-Fu Tuan (geógrafo que merece um post sozinho… um autor incrível!).

Eu até formulei pergunas mais complexas para ele durante o debate. A idiota aqui não perguntou… ia dar pano pra manga. Vejam só: o senhor acha que a abordagem da geografia cultural pode reaproximar (ou “reduzir” o dualismo entre) as “geografias” física e humana que tanto se separaram ao longo deste processo de especialização do conhecimento científico?

E então, o que acham, colegas geógrafos?

Agora oficialmente sou bolsista PIBIC, isto é, agora meu ilustre salário de R$300 reais e eu estou oficialmente inserida nos meandros das pesquisas e nas fogueiras das vaidades. Yay?

Em meu primeiro dia de “trabalho” enquanto bolsista de Iniciação Científica, fui “obrigada” (estou usando o jargão da institução) a comparecer à palestra de “início das aulas” do segundo semestre letivo da UFPR. Com muita expectativa, fui ouvir o que os ilustres palestrantes tinham a dizer sobre pesquisa, “desenvolvimento”, ciência (tá, esses caras confundem ciência com tarefismo) e tecnologia (ha ha ha… quem é o Brasil pra falar de criação de tecnologia?).

Primeiramente houve uma propaganda palestra com a pró-reitora da PRPPG (se não me engano, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação) com o atual “scenario” da pesquisa na nossa Universidade. Após isso, a Reitora em Exercício Márcia Helena Mendonça proferiu algumas palavras como é de praxe e, por último, o palestrante convidado, Marco Antonio Zago. Adivinha a graduação do homem? Medicina… Nada contra os médicos, mas só acho que eles são supervalorizados. Inclusive, agora abrindo um parêntesis, adoro House!

Voltando ao foco do post – coisa que foi difícil manter durante a palestra – ou seja, da palestra, confesso que quase me retirei do recinto (um auditório roxo e amarelo… “mó legal”, como diz meu amigo paulistano da gema Elton) quando os primeiros slides foram colocados. Para dar um exemplo de como a tecnologia e a ciência geram desenvolvimento e bons resultados para o país, o cara me deu o maior dos exemplos sem-noção que vi na minha vida (claro, enquanto geógrafa pensarei assim): ele usou como exemplo de grandesíssima tecnologia a destruição massiva do cerrado. Claro que ele não usou estas palavras mas falou nos seguintes termos: o Cerrado, (ex-)ecossistema que cobre mais de 50% do território nacional – sem contar a Amazônia – sempre foi um “entrave” na produção de alimentos do país. Com as tecnologias de tratamento de solo, toda a área que outrora era inutilizável, agora se transformou em latifúndios obtidos por grilagem extensas plantações de… adivinhem… SOJA e GADO!!! Realmente, durante minha viagem para Rondônia, as paisagens mais frequentes eram os mares de soja recortados por alguns locais de engorda de gado. Lembro-me de muitos colegas perguntarem do belo cerrado que é belamente ilustrado através de fotografias de livros didáticos de georafia… agora ele se foi. O que sobraram foram algumas simpáticas emas que vimos no caminho.

Enfim, como alguém em sã consciência pode se orgulhar em destruir massivamente um bioma em função de interesses comerciais e “UDRianos”? Será que o fim desta “estrada do desenvolvimento” beira também no fim de nossa biodiversidade? E não adianta vir falar em sustentabilidade, pois esse jargãozinho forjado pela ONU (bem como os jargão de “país subdesenvolvido”) nada mais representa vagas boas-intenções cercadas de marketings vindos direto do inferno. Ah, só para finalizar este assunto: os produtores da miraculosa tecnologia – 2 brasileiros e 1 americano - ganharam o prêmio nobel da paz. Hehe, nada mais coerente… anos mais tarde foi a vez do Al Gore e do IPCC (international pannel for climatic changes).

Olha, o resto da palestra não foi muito relevante para mim. Foi aquele mesmo discurso tecnocrata (por favor, esqueçam a tecnocracia de Mago, RPGistas… hehehehehe) que menciona a falta de doutores do Brasil, o problema de tê-los nas universidades, a falta de pesquisadores geradores de novas tecnologias nas indústrias… Duh! Desde quando um clássico dependente de tecnologias vai ter pesquisadores em suas indústrias? Que indústria/empresa se dispõe a pagar um pesquisador Brasileiro? Aqui é a terra dos peões (engenheiros e “analistas de sistemas”, em especial) de alta qualificação. Talvez seja por isso que 80% dos doutores estejam no Brasil e 95% da pesquisa no Brasil seja feita em Universidades Públicas!

Eis um trecho da matéria publicada na UFPR:

Algumas áreas consideradas como estratégicas pelo Conselho seriam a nanotecnologia, os biocombustíveis, o programa espacial e nuclear, mar e Antártica, meteorologia e mudanças climáticas, saúde e biotecnologia, desenvolvimento sustentável da Amazônia, entre outras.

Uma outra crítica que eu gostaria de tecer foi a total ausência por parte dos estudantes de movimento estudantil que tanto criticam o academicismo, a ditadura do CNPq, as políticas de pesquisa, enfim… todo aquele papo que só é bonito durante as rebeldias de fim de semana. Na hora de conversar de gente grande para gente grande, todos os revolucionários sustentados pelos pais simplesmente somem.

Ah sim, quando falei em tecnocracia, por definição falei da total indiferença demonstrada em relação às Ciências Humanas, Artes e Letras. Até mesmo as Sociais Aplicadas e a Jurídica ficaram de fora, justamente umas das que mais enaltecem o caráter institucional das coisas… (!)

Fico por aqui. Sinto que escrevi um long post.