Arquivos Mensais: Novembro 2008

Boa noite, senhoras e senhores!

Ontem tive um raro privilégio nessa vida de estudante… talvez um evento único nessa vida de acadêmica.

Ah, não sei como introduzir isso de uma maneira menos direta: FUI AO “CAFÉ GEOGRAPHIQUÉ” ORGANIZADO PELA PÓS ONDE NINGUÉM MAIS, NINGUÉM MENOS QUE PAUL CLAVAL ESTAVA PRESENTE! Tive essa oportunidade graças à professora Salete, pessoa maravilhosa com quem estou estabelecendo algumas parcerias acadêmicas. =D

Além disso, tive a oportunidade de assistir a palestra sobre paisagens culturais. Fiquei felicíssima da vida quando ele mencionou um livro que comprei e comecei a ler: “Cultural Geography: a critical introduction” do Don Mitchell. Achei que seria uma obra “secundária” pelo fato de nunca ter ouvido falar do autor… mas se Claval leu, certamente fiz uma boa escolha. (Olha a falácia do argumento de autoridade aí, gente!!!)

Paul Claval é um geógrafo Francês com seus 70 e poucos anos cujas obras (especialmente “Geografia Cultural”) foram traduzidas para diversos idiomas. Recebeu o maior prêmio que um geógrafo pode receber: o o Prêmio Vautrin Lud, (este prêmio é conferido por universidades de 50 países).

Foi uma experiência bacana. Eu achei que ia ficar meio acanhada, mas acabei ficando TOTALMENTE acanhada. Não só eu, como todos os pós graduandos (e alguns professores!) ficamos cheios de dedo, tratando o hóme (que escreveu aproximadamente 700 artigos (!)) com bastante receio. De tanto hesitarmos, aquela teoria que John Nash formulou em “Uma Mente Brilhante” sobre a garota mais bonita acabou se aplicando: a pessoa mais “requisitada” acabou ficando sozinha. Nisso, acabei perguntando da temporada dele nos EUA e Canadá, e ele me falou que esteve com ninguém mais, ninguém menos que Yi-Fu Tuan (geógrafo que merece um post sozinho… um autor incrível!).

Eu até formulei pergunas mais complexas para ele durante o debate. A idiota aqui não perguntou… ia dar pano pra manga. Vejam só: o senhor acha que a abordagem da geografia cultural pode reaproximar (ou “reduzir” o dualismo entre) as “geografias” física e humana que tanto se separaram ao longo deste processo de especialização do conhecimento científico?

E então, o que acham, colegas geógrafos?

Olás!

Depois de uma longa invernada, com 6 trabalhos para entregar e no meio de um caos de prazos, atividades e após uma longa semana acadêmica, vou tentar retomar a assiduidade quinzenal deste blog.

Apesar de ter muito o que dizer – comentários a respeito das aulas de campo que tive, a decisão de permanecer mais um ano no CAGEO, as frustrações da Iniciação Científica, a tradução de um livro do Yi-Fu Tuan… etc! – tenho que abrir um parênteses para pegar aquelas coisas que se perder fica no “oblivion”.

Apresento-lhes um post que fiz na comunidade do CQC – Brasil que mostra de forma bastante informal as minhas opiniões sobre o ato de abortar: desde o direito de escolha da mãe até a questão da conivência com o abandono do pai nessas horas.

O contexto deste texto (que depois virou desabafo) se dá na permissão do aborto em caso de estupro.

Por que a “vida” de um embrião que foi produto de estupro “vale” menos do que a de um embrião gerado por acidente? Permitir em caso de estupro e proibir em casos de acidentes é só pra mulher “pagar as consequências” (“assumir a responsabilidade”) de seus atos, não acham? Qual é o propósito de forçar uma mulher a dar continuidade a uma gravidez indesejada? Castigo, só pode ser…

E os pais que abandonam as mulheres com os bebês no colo? Por que não são condenados pela sociedade da mesma maneira que a mãe que abandona o bebê? Por que não são cobrados na mesma moeda para “assumir a responsabilidade”? Hahaha, seria cobrar demais. Se hoje em dia há pais ausentes em casa (em algumas vezes a mulher machista até concede!), quem dirá pais que fingem que os filhos não existem, ou então só dão uma cuidada (a.k.a. compram doces e brinquedos descartáveis) no fim de semana pra amenizar a culpa da omissão e ausência durante o dia-a-dia… por que esses “pais” não são cobrados?

Proibir o aborto é condenar a mulher a uma maternidade indesejada e impedir que ela escolha o que fazer com um bando de células se multiplicando que ainda nem sequer tornaram corpo de ser humano (é só ver como nós enquanto embriões somos parecidos com peixes, macacos etc). Acho que as pessoas deveriam ter o direito de de escolher o que querem para suas vidas, independentemente das crenças alheias.

O que é melhor? Permitir de vez o aborto seguro – tem até remédios ESPECÍFICOS para isso (não outros estilo cytotec) em que o aborto é realizado sem toda aquela sanguinoleira dos vídeos sensacionalistas – ou negar os milhões de reais gastos com abortos caseiros e clandestinos malsucedidos. Sem contar, é claro, nos casos de morte da mulher. Seria a morte dessas mulheres um castigo divino?  Se vcs acham que caso o aborto seja permitido as coisas vão virar uma festa, pergunte a uma mulher que abortou se ela faria disso uma prática constante na vida dela…pergunte se aborto é motivo de festa.

Alguns aqui relacionam filhos indesejados e criminalidade. Acredito que a criminalidade não é culpa das mulheres que têm filhos. É culpa, sim, de um sistema educacional precário e de um capitalismo excludente de pessoas… Aborto não é uma solução para acabar com a fome ou a pobreza. Fome não é problema de falta de comida, mas de DISTRIBUIÇÃO de comida. A alimentação é um ato de DIREITO do ser humano, portanto, não deve ser impedida pela COMPRA deles… enfim, talvez esta uma idéia muito complexa para o ideário judaico-cristão e pequeno-burguês da maioria das pessoas aqui…

A consequência natural do capitalismo é gerar diferenças e exclusões. Não há lugar para todos debaixo do Sol do consumo no “xopis centis”. Infelizmente, Marx já dizia (não os marxistas idiotas de hoje em dia) que o capitalismo invariavelmente gera essas desigualdades. E a partir dessas desigualdades, sobretudo com as péssimas condições que as pessoas pobres são tratadas nesse país, o crime acontece.

Apesar destes argumentos que levantei, temos que lembrar que pobreza não é passaporte para o crime. Quantas notícias vemos de jovens universitários (aparentemente “do bem”) inescrupulosos que matam pai e mãe, praticam sequestros, espancam empregadas domésticas, queimam mendigos, humilham funcionários dos lugarem em que passam e usam a maconha que financia o poder paralelo dos traficantes nas favelas?


O que tem que ser discutido é o direito inalienável de a mulher escolher sobre seu futuro. Cada indivíduo constrói sua dignidade ao longo da vida, ela não deve ser atribuída a um amontoado de células! Essa idéia de sacralização da gravidez vem lá dos tempos em que se acreditava que isto era uma vontade divina! Sabemos que hoje é só uma trepada…

Hoje em dia sabemos que religião e geração de um filho não tem nada a ver. Tratemos a gravidez como um fenômeno biológico/sociológico/psicológico. Que fique claro que eu não estou excluindo todas as implicações psicológicas e emocionais, principalmente para a mãe, já que vivemos numa sociedade MACHISTA que isenta o pai de culpa na hora do abandono do filho (tem que pagar pensão, mas isso não isenta o problema da ausência).

Quem vai condenar os pais ausentes? Quem vai consertar todos os males que um pai ausente gera na estrutura emocional das crianças E dos adultos?

Condenar a mulher é muito fácil… é histórico… é bíblico.

Só para enfatizar – como diria o “coordenador”:

Texto sem revisão